quarta-feira, 27 de junho de 2007

O contexto da hipercompetitividade

A minha geração de profissionais de comunicação, formada na década de 90 e que hoje atua no mercado, vivencia um momento diferente.Diferente sempre será de uma geração para outra, mas talvez o momento de agora seja um momento de muitas dúvidas e oportunidades.

Toda uma geração de publicitários que antecedeu a década de 90 viveu um momento em que de fato se exercitava o lançamento de produtos novos na real concepção da palavra. Ou seja, você tinha o desafio de criar um hábito de consumo de algo que antes não existia, e que depois de criado esse hábito você teria no máximo três produtos concorrentes disputando esse mesmo mercado que você tinha criado. Era mais fácil nesse momento associar uma marca à uma categoria e transformá-la em sinônimo dessa. Não é que não existam casos desse tipo hoje – O Ipod é um exemplo recente disso, pois virou sinônimo de MP3 e o Google sinônimo de busca, mas que outras produtos viraram ou mantiveram a categoria associada à sua marca no século 21? Existe algum player sinônimo de DVD? Ou alguma marca sinônimo de telefone celular? E são produtos recentes também.

O momento de hoje é de uma verdadeira hipercompetividade onde cada categoria tem pelo menos mais de 10 marcas de produtos similares com performances exatamente iguais. Fora isso, o tempo médio de uma empresa concorrente lançar um produto exatamente idêntico ao seu é de dois meses... isso mesmo dois meses. Óbvio que em produtos de alta tecnologia esse tempo aumenta, mas em produtos de baixa complexidade esse tempo diminui. O fato é: Esse tempo nunca ultrapassa um ano. Se já é difícil consolidar uma marca em um ano, imaginem em dois meses e ainda tentar transformá-la em sinônimo de alguma coisa sem uma pronta resposta da concorrência. Existem até casos de empresas bem sucedidas que se limitam ao longo de sua existência a lançar “cópias” de produtos bem sucedidos no mercado.

Tenho uma teoria de que hoje o consumidor passa por um “stress da decisão”, aumentando sua angústia de compra e automaticamente ficando inoperante na tomada de decisão. Conheço uma história que retrata bem esse fenômeno. Há cerca de oito anos atrás uma empresa ao promover seus funcionários para o nível gerencial os presenteava com um Vectra Preto Zero KM. Isso era um fator motivacional impressionante e um benefício extra como fator de retenção. Todos os funcionários ficavam extremamente felizes ao receber seu carro Zero. Recentemente essa mesma empresa resolveu ampliar o benefício e concedeu o direito de escolha aos funcionários. Eles poderiam escolher, ao serem promovidos, oito modelos de carros e na cor que eles quisessem. Ofereceram como direito de escolha: Golf, Vectra, Civic, Corolla, Zafira, Marea Weekend, Bora e Mégane. Resultado prático disso: A frota demorou mais tempo para ser renovada, pois todos os gerentes ficaram em dúvidas de qual carro escolher e pior, depois de escolhido o modelo e a cor, eles ficavam infelizes por acharem que não fizeram a escolha acertada. E essa infelicidade se repetia diariamente ao estacionarem seus carros e olharem as escolhas de seus pares.

Um dos fenômenos da hipercompetividade é o aumento do "stress" na hora da escolha. Hoje existem personal stilysts, personal trainers, personal diet's, decoradores e todos os tipos de personais para tirarem das pessoas o peso da decisão pessoal em uma época de múltiplas escolhas.

Enfim, esse artigo é apenas o início de um pensamento que vou desdobrar em novos artigos, abordando as questões das redes sociais, dos “orientadores profissionais”, do papel mais abrangente da comunicação e das novas mídias como parte integrante da modificação do comportamento de consumo.

segunda-feira, 25 de junho de 2007

E Cannes está mudando...

Hoje a notícia mais comentada no mercado publicitário é sobre o ganhador de Cannes na categoria "film". Pela primeira vez um vídeo "viral" (o Dove Evolution)ganhou na categoria "film". Obviamente não sem polêmica e reclamações, mas o argumento do presidente do Júri me parece bastante convincente: Eles estavam lá para julgar filme ou TV?



Também podemos perceber a crescente importância na área de Cyber, Titanium e "Integrated", aonde nas duas últimas o Brasil sequer entrou em short list. O que o festival vem nos mostrando, e essa não é a minha opinião isolada, é que as fronteiras da comunicação há muito tempo romperam os limites das mídias tradicionais. Isso é ótimo para a criatividade e é muito melhor para o negócio como um todo.

Óbvio que ninguém em sã consciência prega o desaparecimento das mídias tradicionais como de grande efetividade para a comunicação de massa. Nem acredito que isso acontecerá, mas o que lamento é a pouca importância que ainda se dá as novas mídias como um todo.

Pensava eu que a publicidade brasileira tinha ficado refém de um modelo "cannes" x "remuneração". Ou seja, as nossas melhores cabeças criativas buscavam como foco principal as categorias de relevância no festival e nossos executivos buscavam recomendações que garantissem a rentabilidade no nosso modelo de remuneração.

Hoje percebo que Cannes se libertou... e o mundo inteiro já notou isso. Talvez , e realmente fico na dúvida, se nossa política de remuneração baseada no CENP tivesse sido colocada a prova, nós não nos tornássemos mais criativos pela simples necessidade de sobrevivência... Acredito que estaríamos muito melhor representados nas categorias que vêm ganhando cada vez mais relevância em Cannes.

Segue, como referência, a matéria da Ad Age para quem quiser refletir um pouco mais sobre isso:

http://adage.com/cannes07/article?article_id=118742